Como vocês devem saber, além de escrever aqui e no Arquitetando Estilos também conduzo degustações para grupos privados, confrarias, amigos e dou aula de enogastronomia. E nesses eventos tenho a oportunidade de conhecer todo tipo de consumidor de vinho, desde os que estão começando até os que já tem uma bela quilometragem (ou litragem?) nessa estrada.

E sabe o que a maioria deles tem em comum? O preconceito com o vinho brasileiro. Isso me impressiona e entristece e é fruto da falta de informação aliada a políticas pouco atrativas econômicas e publicitárias.  A maioria dos brasileiros não sabe e nem quer saber sobre o assunto!

Eu, como apaixonada e defensora dos nossos vinhos, sigo firme em meu trabalho de formiguinha para mostrar um pouco do que temos de melhor e por isso trago minhas razões e um desafio aos leitores:

O Brasil é uma terra de muitas culturas, povos, sotaques, comidas…E de muitos vinhos também! Aqui conseguimos produzir uma infinidade enorme de vinhos com características muito diversas. Como bom exemplo temos nossos espumantes (já entro em mais detalhes sobre eles) que vão desde os mais frescos e delicados até grandes grandes rótulos de guarda. Tem vinho do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo, de Minas Gerais, de Goiás, de Pernambuco.. E cada um tem algo especial. Não é possível que um não vá te agradar. Prove!

2º Estamos começando nesse ramo, nossa produção de vinho fino é relativamente recente e, nesse período de descoberta de nossa vocação, já tivemos grandes acertos. O feedback do mercado é importantíssimo para que a gente chegue lá, foque e produza com qualidade. A falta de interesse do brasileiro é um grande desestímulo aos produtores. Prove!

3º Lutamos contra tudo e contra todos: Imagine um país que não apóia um setor em plena ascensão. Sim, é isso que vemos por aqui. Como eu disse acima, algumas parcas políticas de divulgação não tem sido suficientes para convencer o brasileiro de que temos sim vinhos muito bons. É preciso se arriscar, provar, servir um vinho brasileiro com orgulho. Minha tática é servi-los sempre às cegas, especialmente aos que dizem veementemente que os brasileiros não prestam, e depois da inevitável aprovação, revelar o rótulo e sentir a surpresa dos degustadores. Prove!

4º O vinho brasileiro não é caro, baratos são algumas coisas que achamos que valem a pena mas são os “restos” das vinícolas estrangeiras que vem para o mercado nacional e não passam de belíssimos “engana trouxas”. Dúvidas? Leiam os posts anteriores (AQUI).

Temos profissionais fantásticos como por exemplo os enólogos das Vinícolas Angheben (tem post sobre eles aqui no blog) e Pizzato que são nascidos e criados no Vale dos Vinhedos e vestem essa camisa, trabalhando pelo reconhecimento de seus rótulos. Também temos reforços internacionais que trazem seus conhecimentos, desbravando nossas regiões produtoras e que também se apaixonaram pelo nosso vinho…. Vale citar três que admiro muito:

  • Miguel Angelo Vicente Almeida, um português apaixonado pelo que faz e que defende o vinho brasileiro como poucos. Veio ao Brasil estagiar pela primeira vez em 2004, fazia a vindima e voltava a Portugal, até que se estabeleceu definitivamente por aqui em 2008. Quer provar os vinhos dele? Procure pelos rótulos da Quinta do Seival e da Miolo (onde participa na etapa final). Todos eles carregam um pouco de sua alma e empenho pelo nosso vinho.
  • Alejandro Cardozo, uruguaio radicado no Brasil desde 2.003 e que é atualmente “o cara” dos espumantes no mundo. Quer provar os espumantes do mago das borbulhas? Procure os da Vinícola Guatambu, Yoo Wines, Estrelas do Brasil… Aliás, eles são perfeitos para entender como temos essa vocação múltipla aos espumantes.
  • Roberto Cipresso, italiano com vinhos premiadíssimos e que, além de produzir na Itália, capitaneia a vinificação dos rótulos do narrador Galvão Bueno na Campanha Gaúcha. Vem desenvolvendo técnicas diferentes de cultivo na região, imprimindo nova personalidade a alguns vinhos. Quer provar? Procure os rótulos da Bueno Wines.

6º Se não pode tomar champagne sempre (eu não posso), não pestaneje: Tome espumantes nacionais. Chega de pagar caro naquele espanhol ou italiano mais ou menos. Tem muita coisa boa aqui, tem brut, tem moscatel, tem levinho, tem encorpado… Alguns que adoro (além dos produzidos pelo Alejandro) são: Cave Geisse e Valmarino (todos os espumantes de Pinto Bandeira são surpreendentes), Rio Sol (lá do Vale do Rio São Francisco, uma região improvável até pouco tempo e que vem produzindo vinhos muito interessantes), Adolfo Lona, Casa Valduga, Aracuri…e tantos outros. Prove!

Viaje, conheça o Vale dos Vinhedos, ouça as histórias. Se permita entender a cultura do vinho, as lutas das famílias de imigrantes. O vinho (não só o brasileiro) está muito além de uma garrafa de bebida alcoólica. Se quiser dicas acesse aqui. Estando lá: Prove!

Jamais diga que o Brasil não tem bons vinhos. Sua mãe deve ter te ensinado a não falar do que não conhece e eu digo mais: Dizem que é preciso provar ao menos 7 vezes algo para dizer que efetivamente não gosta. Eu te desafio a degustar ao menos 7 rótulos nacionais nos próximos meses e fazer esse teste. Prove!

9º Não quer comprar uma garrafa inteira pra começar, chame uns amigos para dividi-la e deguste às cegas como comentei acima ou visite lugares especializados em vinhos nacionais como o Red Buteco em São Paulo, cheio de opções para desbravar nosso mundão. Aliás, que bela iniciativa, pessoal do Red!

 

 

10º Deixe as comparações de lado. É vinho brasileiro, tem sua própria personalidade. Não o equipare ao chileno, argentino ou francês que degustou. Ame-o porque ele é bom, porque ele é diferente, porque ele é brasileiro. Prove!

11º Entenda um pouco mais sobre nossos vinhos assistindo ao lindo documentário “Mais uma Taça”, uma produção franco brasileira de emocionar.

Valorize o que é nosso, faça parte da história do vinho brasileiro contando aos seus netos que em 2.017, quando ainda éramos muito pequenos no mundo do vinho, você arriscou uma garrafa que transformou aquele dia em um momento mais que especial.

 

 

 

Ps. Coluna originariamente publicada no Arquitetando Estilos.

Ps2: Foto destacada retirada do site do IBRAVIN

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