Andrew Jefford assim define a Carignan: “Seus vinhos costumam ser escuros, pungentes, ácidos, ásperos. Por que me detenho nela? Por que, a exemplo das nuvens mais escuras de tempestade, tem um lado ensolarado de cuja existência poucos desconfiam.”

Carignan é uma uva do Mediterrâneo antes desprezada  e que está renascendo com vinhos finos e elegantes emergindo da Espanha, França e Chile.

Carignan é um nome emprestado do francês, mas, dependendo do seu país de origem, você pode conhecê-lo como Bovale di Spagna, Cariñena, Carinyena, Mazuelo, Samsó ou outro sinônimo. A variedade é na verdade de origem espanhola e cujos ascendentes ainda são desconhecidos. Existam mutações blanc e gris, mas é a versão tinta que domina o mundo.

Se expandiu no período pós-filoxera, pois, em referido contexto, sua pior característica – a superprodução – era bem vinda e sempre esteve muito presente especialmente em Languedoc e Roussillon.

Normalmente tem cachos grandes e compactos e ciclo de maturação extremamente longo, é muito propensa ao oídio e podridão dos cachos. Também precisa de solos pobres e rochosos e pouca chuva para reduzir a produtividade e aumentar sua concentração de sabor. Embora existam milhares de hectares, são as vinhas velhas que tem mostrado maior resultado.

Região notável de produção da Cariginan é a Catalunya, onde é frequentemente encontrada nos DOs de nível superior, incluindo Priorat, Montsant, Empordà e Terra Alta.

Carignan é conhecido por desenvolver uma grande variedade de taninos, acidez e cor, por isso tem sido normalmente usado como um excelente parceiro de mistura para Grenache, que pode não ter essas qualidades. Geralmente exibe frutas negras, violetas e outros aromas florais, juntamente com notas de casca de laranja, alcaçuz preto e cacau. Na boca, os vinhos são muito encorpados com taninos que apresentam um aspecto fino e uma acidez marcante, além de excelente potencial de envelhecimento. Carnes assadas, em molho e com vegetais assados são ótimas companhias.

Este período de redescoberta da Carignan não aconteceu por acaso e se deve a pesquisas e também a causalidade do tempo. Embora seja verdade que esse tipo de evolução está acontecendo com inúmeras variedades de uvas, no caso de Carignan também significou esperar mais de um século para que as vinhas velhas mudassem seu passado rústico e renascessem em esplendor.

No Chile quem sedimentou esta teoria foi a pesquisa encabeçada pela Universidade de Talca, no Chile com a participação de 12 produtores – hoje são 16 – que levou o nome de Vigno (Vignadores de Carignan). Conforme os protocolos realizados por este grupo empenhado em fazer justiça à Carignan, os vinhos devem ter  pelo menos 85% de Carignan, plantados em vinhedos antigos do Maule, e devem esperar por pelo menos dois anos antes de chegar ao mercado, seja em barrica de carvalho, seja na própria garrafa.

 

As lindas imagens são dos vinhedos da Viña Morandé.

Até a próxima taça, Keli Bergamo